quarta-feira, 3 de junho de 2009

Estrangeirismo - O Começo

Ela vai no autocarro com a cabeça encostada na janela com o olhar perdido no infinito. Ouve as conversas das velhotas que se queixarão de todos os males de que padecem até ao final da viagem. Finge sentir pena delas. Finge sentir pena dos pobres e remediados. Finge sentir pena do estado miserável do seu país. Mas fica-se pelo fingir. Era difícil importar-se menos. …non, rien de rien…
Ela vai no autocarro com a cabeça encostada a ouvir música. A única coisa que ela consegue sentir é uma imensa solidão. Uma estranheza profundo por aquilo e aqueles que a rodeiam. E cansaço. Muito cansaço. Um cansaço muito simples que lhe penetra até aos ossos. Sente-se velha. E sente-se farta. Farta de tentar ser o que os outros, os pais, os professores, os amigos querem que ela seja. Chega até a sorrir ao pensar em como nunca ninguém quer (melhor: lhe exige!) que seja ela própria. Quando é justamente isso que ela quer. Ela não quer ser boa dona de casa, ela não quer ter boas notas, ela não quer comentar rapazes ou as roupas das outras raparigas. Ela não quer ser mais um produto da sociedade-do-fica-bem. Ela não o vai ser. Ela quer ser só. Quer ser ela própria. Quer chegar a isso através da sua cabeça, esse engenho que nunca pára de reflectir. Desde que se lembra é só isso que ela quer ser e até agora nunca ninguém lho permitiu. Como resultado, nunca foi feliz. Nunca se sentiu bem onde estava nem mesmo quando não estava onde costumava estar.
Mas agora tudo isso vai ser passado.
No que depender dela, a sua vida dependerá do destino deste autocarro. Vai para outro país. Mas não vai para outro país para voltar a fingir que pertence ao seu sítio. Não. Vai para tentar acomodar-se à sua maneira. Se ela quiser ser louca, sê-lo-á. E sê-lo-á para sempre. Ou pelo menos até que o cansaço volte a invadir-lhe os ossos e aí saberá que vai ter de voltar a mudar (se).
A partir de agora não tem pais, amigos, nada. A única relação que tem é com a sua mochila da roupa e com este autocarro. Este autocarro em que encosta a sua cabeça. Ele decidirá para onde ela irá. Continua a ouvir a sua música… non je ne regrette rien.



Por J.R.C.P.







Ele não tem a porção central do recorte dos dedos.
Nós olhamos e sentimos-lhe a falta da sombra aguda do som das palavras.
Ele é este.
A percepção do mundo é a impressão digital dos nossos sonhos. A singularidade mais radical do nosso sentir. É única e condena-nos a uma solidão intensa que não sabemos suportar.
Somos então matéria alienada que se funde em grupos urbanos ou não para dissolver a sua identidade. Para dissolver a sua solidão numa maré de solidões unidas. A solidão é a condição primeira a ser aceite. Mas, ainda assim, ainda que seja transversal a toda a humanidade, existe um punhado de seres ainda mais indolente.
É este sentir estrangeiro que nauseia o espírito dos inconsolados que albergam perguntas. A ferida está isenta de dedos e dói. Pois as perguntas transbordam e as emoções são de tal modo acesas que ulceram.
Ele veste-se de pessoa humana, vulgar e quotidiana. Relata o estado do tempo no comboio, a saúde do pai no autocarro e reclama o preço do café nas conversas de escadas rolantes. Ser de um modo lateral a tudo o que constrói o conceito de vida não é uma prova. A susceptibilidade aos devaneios abjectos que a mente persegue não é um desejo. Nunca foi algo que se conquistasse. A alteração do tacto, visão, olfacto… Nunca conseguiu ser externa. A prevalência das questões salientes e sinápticas do riso,
não é almejada. Ele está sob uma condição.
Eis o segredo: uma condição pura.
Uma marca rasante e embrionária que destrói qualquer destino, substituindo-o pela construção diária e metamorfoseante do seu próprio ser.
Ele ansiava o regresso à humanidade. Todos o desejamos. Todos nos convencemos que podemos regressar a uma consciência colectiva. Deixaremos de ser sós… Quando?
Ele não vai voltar. Talvez os outros. Talvez aqueles que sossegaram as circunvoluções das suas dúvidas e seguiram o trajecto igual aos seus pais e avós. Todos esses que simularão a felicidade no padrão já inventado. E que ninguém os condene, pois significará inveja. E é.
Ele não regressa, talvez o resto da humanidade sim.
Portanto, as soluções por si encontradas não terão casa, nem fim, nem rosto, nem compreensão. Um conjunto de factores já previstos que lhe açoitam a felicidade a que tem direito.
Ele será feliz mas sentir-se-á sempre imperfeito.
Ele é o estrangeiro na terra dos menos estrangeiros.



Por M.E.