quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O sem abrigo com metafísica


A pele é morena. Um sol de Agosto da tarde de infância, impregnou a melanina possível para que fosses reconhecido. Cintila no teu cabelo liso, a tragédia de não poderes reclamar a liberdade. Dissolverias o sentido da existência, num jogo de futebol em que os pés descalços se friccionam nus, na bola irregular e solidamente leve. O campo é o lugar em que corpo e pensamento se articulam unos, no alcance do clímax do golo. E não há melhor metáfora de vida. Ali se cruzam emoções, risos e sustidos. Tudo efémero; à semelhança da vida. Um jogo de futebol é o melhor da vida noutra escala. Numa rapidez de tempo, contém o entusiasmo da perseguição de um objectivo, a vitória, a derrota, o companheirismo, a alegria de lágrimas, os aplausos, o movimento e a conclusão. Não há espaço para monólogos entediantes e niilistas, que conferem ultimatos inúteis à vida.
Depois, regressas a um lugar de matriz estática. Resmungas o contraste: o quotidiano não permite a manutenção de toda a excitação que orbita num jogo.
A resolução é mendigares nos becos de uma cidade. Nas intermitências, ages teatralmente para que as pessoas te notem. Desejas-te louco. Procuras na incoerência, uma fuga para a sociedade de leis, regras e obrigações.
És o sem abrigo de pé nu, neutro actor das regras do mundo. Mas tu mesmo as conheces, as praticas. E é nesta inércia sobrevivente que concebes a mendicidade como a verdadeira condição de livre.
Os sem abrigo sem metafísica, se a tivessem, cogitariam sobre a grande solidão das suas vidas.
E se não se resignassem à morte pelas injúrias da decepção, exibiriam os pés nus, na esperança de um novo golo.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Fotogenia das Massas



Bouquets humanos espreitam a floresta da odisseia de ser gente.
Começa-se jovem, quando a impuberdade ainda sacode os braços. Assim se sucedem os anos: procurando em que massa nos sentimos mais adaptados.
Uns aos outros nos fotografamos, depois vamos apreciando, comentando, criticando…
Sentimos o envelhecer do tempo estourar-nos o viço, sentimos a labareda da voz dos outros em surdina.
Os teóricos especialistas, reflectem todos os dias sobre que condições reunir para que a fotografia saia perfeita. A mais consensual conclusão, revela que é o fio de azeite na água fervente, que devolve a beleza pré-existente na massa.
E voilá! A massa insinua-se.
Contorcida numa beleza mística e original.
E voilá! A massa insinua-nos.
Participante da multidão para ser singular.
E voilá! A fotogenia das massas.
Pórtico de uma humanidade enciumada pelos deuses.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Edredon de flocos de estrelas


Verdadeiro é perdermo-nos e cairmos: às vezes é o único modo de entranhar visceralmente a estética venerável das estrelas.

domingo, 20 de junho de 2010

José Saramago

"Senhoras e Senhores,

Era uma vez um rei que fez promessas de levantar um convento em Mafra, um soldado maneta, uma mulher que tinha poderes, e um padre que queria voar numa Passarola e que morreu doido;

Era uma vez Jesus, que disse a Maria Magdalena - “quero estar onde a minha sombra estiver, se lá é que estiverem os teus olhos”;

Era uma vez um cão que lambeu as lágrimas a uma mulher desesperada num mundo de cegos, desejando também cegar para ser poupada aos horrores que a vista lhe trazia;

Era uma vez a morte, que tinha um plano e que o cumpriu – abraçou-se ao homem sem que ele compreendesse o que lhe estava a suceder, e ela, a morte, que nunca dormia, deixou descair suavemente as pálpebras enquanto adormecia; no dia seguinte, ninguém morreu;

Era uma vez um homem, que quando morreu, partiram 2 pessoas: saiu ele, de mão dada com a criança que foi – tal como o próprio José Saramago previu, nas suas próprias palavras.

Era uma vez e tantas outras vezes, o respeito à terra e aos homens, a luta contra as injustiças, a defesa dos direitos humanos, a denúncia contra a guerra do Iraque ou contra a ocupação palestiniana, as causas dos Sem Terra, do movimento anti-globalizante, da preservação do ambiente, ou do anti-clericalismo desassombrado.

Estas e tantas outras, foram as histórias com que o ateu místico, religioso laico, interrogador de Deus e dos homens, José Saramago, “comunista hormonal” nas suas palavras, questionou Portugal e o mundo incessantemente, directa ou metaforicamente.A liberdade do pensamento define o criador: Saramago foi voz lúcida, inconformada, firme, insubmissa na luta contra a desigualdade entre os homens – esta sim “a verdadeira miséria”, dizia.

Parte da imensa receptividade que as suas obras têm merecido em todo o mundo, e que a atribuição do Nobel cimentou e glorificou, deve-se a esse carácter humanista, à esperança que a sua obra impõe ao Homem. Recebeu o Prémio Nobel da Literatura «... pela sua capacidade de tornar compreensível uma realidade fugidia, com parábolas sustentadas pela imaginação, pela compaixão e pela ironia», segundo a Academia Sueca. Fiel ao seu compromisso com a consciência, usou a escrita para uma reflexão sobre as grandes causas da humanidade, edificando uma obra coerente, ousada, sólida, moldada pela ética, visando, sempre, a dignificação do Homem. E fê-lo por vezes subvertendo normas - quer de narrativa (o seu estilo é inconfundível, nas suas frases longas e de pontuação singular), quer enfrentando dogmas - não tinha fé em Deus (mas certamente Deus teve fé nele). Para ele a escrita, enquanto forma de expressão do pensamento e de intervenção intelectual, foi instrumento, foi arma, foi agente provocador e plataforma de interrogação permanente do indivíduo e da sociedade.

Com a sua actividade cívica aliada à criação literária, cumpriu aquilo que é mais caro aos criadores e aos artistas – conseguiu com a sua obra fazer pensar os destinatários, perturbar os conformados, incomodar as consciências e aguçar a lucidez.

Deixa a Fundação José Saramago, à qual se dedicará a companheira e musa da sua vida, Pilar Del Rio, força inabalável que foi determinante na sua alma e na sua obra, a quem também prestamos aqui homenagem. Fundação José Saramago que assume, entre os seus objectivos principais, a defesa e a divulgação da literatura contemporânea, a defesa e a exigência de cumprimento da Carta dos Direitos Humanos e o cuidado do meio ambiente.

Enquanto escritor português, José Saramago deu um incontestável contributo para a afirmação e difusão da Língua Portuguesa, para a divulgação da Literatura Portuguesa e para a união do mundo lusófono. Embaixador da cultura portuguesa no mundo, a influência da sua obra estendeu-se a um amplo espectro de outras expressões artísticas - na ópera, no cinema, nas artes visuais, sublinhando a universalidade da sua linguagem. A Literatura Portuguesa, as Literaturas em Português, com Saramago, adquiriram ressonância internacional e prestígio global, pela universalidade das questões que o Escritor agarra e reflecte com tenacidade e vigor, e pelo génio sísmico com que as dá a ler, a pensar, através da sua escrita.

Portugal homenageia hoje o homem, simples, sensível e corajoso;Portugal celebra em Saramago, a sua humanidade, grandeza e universalidade;Portugal orgulha-se do Escritor e engrandece-se com a sua obra, poliédrica, ímpar e seminal. Portugal agradece, sentida e sinceramente, o encontro mágico de Saramago com a Literatura, e o lugar único e perene que José Saramago ocupará para sempre na Literatura e na Cultura do mundo.

Como escreveu ontem um amigo a Pilar, - Não há palavras. Saramago levou-as todas…

Obrigado José Saramago. "


Discurso da ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, na cerimónia de homenagem a José Saramago

terça-feira, 15 de junho de 2010

Porque a política é, geralmente, uma piada


Descubra as diferenças entre um país e o outro.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Teoria do Pai


No tempo menor, os cabelos eriçavam-lhe, como hoje.
O pai dizia-lhe:
- Não se chora.
E ela obedecia solenemente, pois ao corpo frágil pertencia a missão de ser mais forte que a vida.
O tempo menor acabou. E hoje semi-obedece ao pai: chora só.

domingo, 16 de maio de 2010

Bamboleante


Gira o funâmbulo de pé fino, de corpo todo, no arame.
- Não caias funâmbulo...
Pede a menina de canção luzente, com a voz a sossegar o vento.
Mas a beleza da sua arte é tanta, que aves vindas de mundos pousam no fio. As aves mais exuberantes, as aves mais sós... Todas se atraem por uma luz não existente do arame.
A menina sente um nó angustiado.
Cai o funâmbulo!!!
Um estrondo seco na terra leva ao voo de todas as aves!
Elas batem asas e asas batem e é um festival de penas tristes e de sangue sólido e som de brevidade e há vento e gritos e marés confusas e tempestades cortantes!
O funâmbulo moribundo não sente a morte, sente os braços da menina.
O amor é bonito, mas a beleza da arte é tanta!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

quinta-feira, 11 de março de 2010

Teoria da Inliberdade


A liberdade é o espaço esférico circunscrito em nosso redor. É externa e depende exclusivamente dos outros que se adivinham ameaçadores dos nossos movimentos. Daí que termine onde começa o traço que circunscreve a esfera do outro ao nosso lado. Esta liberdade é uma questão de coragem e de combate constante com outros seres humanos. Pode ser uma liberdade de medo, pode ser uma liberdade de respeito, pode assumir diversas faces. No entanto a sua significação é a mesma: marcar o nosso espaço, como se tratasse das fronteiras de um país que nos pertence. Desta liberdade toda a humanidade fala. Todos a conhecem e a têm como um valor magnificente. Defendem-na no púlpito de qualquer assembleia, dramatizam-na numa produção cinematográfica, condecoram quem a conquistou de forma mais exemplar…
Contudo, face a um conceito milenar, falta-nos uma palavra: inliberdade. Cada ser humano tem a sua singular inliberdade. Esta é substancialmente mais difícil de atingir que a liberdade, pois é interna: depende apenas de nós. Para se ser livre no âmbito interno e psíquico do próprio ser, é preciso desenvolver a arte que gere as emoções a que estamos sujeitos. Reflecte uma auto-luta permanente. É preciso o recurso a uma disciplina coerente para sermos melhores que nós mesmos. Enfrentar os demais é audacioso. Enfrentarmo-nos, é característica dos sublimes. É um processo complexo que se empenha em vencer os nossos próprios medos, na libertação do passado, no abandono da estagnação a favor do acto… O alcance da inliberdade é o patamar da harmonia interior, da pureza dos olhos e do regresso à infância.
É-me estranho, nesta sociedade vigente, que isto não seja aplaudido. Só é lembrado naqueles que recorrem a ajuda especializada, pois o seu tumulto interno assumiu dimensões patológicas. Não é um valor que se tenha valorizado e talvez explique muito da nossa arquitectura social. A inliberdade sobrepõe-se a qualquer liberdade. Um homem ou mulher que seja detentor da sua liberdade interna, é o verdadeiro livre.
Não se iludam: há muitos homens e mulheres de algemas que são livres.
Quanto às crianças, além de livres, pelo seu exemplo,libertam.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Pescador de Ostras



"Antes trabalhar significava sobrevivência, hoje, para alguns, é a sua exclusiva realização pessoal."

J.E., ex-estudante de estudos europeus

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Som


O chão tinha poeira e com ela o movimento dos homens a sacudir uma fúria desconhecida.
A pele era negra por conhecer o sol, os pulsos tinham correntes por conhecerem novos homens.
Os dedos eram espessos e o comportamento rude.
Mas havia som.
E o som foi música. Depois libertação progressiva.
Levemente se apoderaram dos instrumentos, mas como a sua liberdade fora estropiada, tinham descoberto o lugar para a revelar.
Os dedos espessos imaginaram de novo a sua pele sob o sol. E os donos das correntes renderam-se.
A escravatura é contemporânea.
Ainda há Jazz por acontecer.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Liberdade


Que processos matemáticos relacionam a liberdade intrínseca e extrínseca de um mesmo ser humano, revelando a sua liberdade absoluta?

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Teoria dos corações múltiplos

A mera visibilidade dos olhos revela-nos um coração. Único. Singular. Só.
Mas senão tivéssemos estes olhos, conseguiríamos ver que temos corações em cada unidade do nosso corpo. A arte de viver depende deste conhecimento, ainda que seja incognoscível.
O tempo, a vida e tudo o que a isto se anexa; entranham-se neste órgão múltiplo e entre si ligado numa rede electrificada.
E isto porque apenas um coração, levaria mais do que a própria vida a recuperar da mágoa inevitável à existência.
E isto porque apenas um coração, não teria espaço para o amor que compreende amar.
E isto porque há tragédias que destroem alguns dos corações.
E isto porque há felicidades cuja expressão depende de vários deles.
E isto porque a paixão é a activação de toda a corrente eléctrica dos corações.
E isto porque a separação é a perca de corações.
E isto porque a solidão mirra todos os corações, mas a pluralidade permite a sub-vida.
E isto porque a esperança é a união das forças de vários corações.
E isto porque o pensamento é múltiplo e precisa de ter um opositor do seu calibre.
Os corações são múltiplos, pois a vida é plural. Nada é fatídico para um só caminho, o caminho é um afluente de caminhos. Apenas isto.
Se no fim da vida tivermos intactos todos os corações, não terá existido vida.
Depois a morte revela-nos o único que permaneceu connosco até ao fim: o verdadeiro.
A esse, chamamos-lhe nosso. No instante seguinte,
(como é grande a dureza do seu segredo revelado)
deixa de bater.


M.E.