
A pele é morena. Um sol de Agosto da tarde de infância, impregnou a melanina possível para que fosses reconhecido. Cintila no teu cabelo liso, a tragédia de não poderes reclamar a liberdade. Dissolverias o sentido da existência, num jogo de futebol em que os pés descalços se friccionam nus, na bola irregular e solidamente leve. O campo é o lugar em que corpo e pensamento se articulam unos, no alcance do clímax do golo. E não há melhor metáfora de vida. Ali se cruzam emoções, risos e sustidos. Tudo efémero; à semelhança da vida. Um jogo de futebol é o melhor da vida noutra escala. Numa rapidez de tempo, contém o entusiasmo da perseguição de um objectivo, a vitória, a derrota, o companheirismo, a alegria de lágrimas, os aplausos, o movimento e a conclusão. Não há espaço para monólogos entediantes e niilistas, que conferem ultimatos inúteis à vida.
Depois, regressas a um lugar de matriz estática. Resmungas o contraste: o quotidiano não permite a manutenção de toda a excitação que orbita num jogo.
A resolução é mendigares nos becos de uma cidade. Nas intermitências, ages teatralmente para que as pessoas te notem. Desejas-te louco. Procuras na incoerência, uma fuga para a sociedade de leis, regras e obrigações.
És o sem abrigo de pé nu, neutro actor das regras do mundo. Mas tu mesmo as conheces, as praticas. E é nesta inércia sobrevivente que concebes a mendicidade como a verdadeira condição de livre.
Os sem abrigo sem metafísica, se a tivessem, cogitariam sobre a grande solidão das suas vidas.
E se não se resignassem à morte pelas injúrias da decepção, exibiriam os pés nus, na esperança de um novo golo.
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