terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Estética

A raiz dos olhos é a beleza. A omnipresença dos sonhos não cumpridos que perseguimos.
A ânsia de perfeição é humana e vencível. Traduzimos as nossas acções em estéticas coerentes de fundos teóricos. Mas muitas vezes são apenas estéticas; os fundos são vazios e soltos.
O que torna esta questão paradoxal é o facto de existir uma concreta perseguição estética das coisas e ao mesmo tempo essa perseguição é feita tendo em conta o pré-existente.
O supremo do apreciável é algo de espontâneo. A harmonia estética das prosas naturais, solta o instinto de admiração do homem. Lança-o a mergulhar na terra, a invadir-se de húmus e som e terra e água. E as demais realidades existentes e fascináveis.
Assim as flores, os caminhos, as lágrimas, o mar, o vento, as labaredas de fogo, os átrios de festa… Assim tudo o que é belo ou conjura beleza, pois os olhos raízes de beleza, conferem magnitude vitalícia e bela. Ou não.
E neste caso reviram o húmus e tudo o que estiver acrescentado, para procurar até encontrar. Pois a harmonia precisa de presença.
O ser humano sente sede deste saciamento ocular e táctil. Sente sede de comer, e nesse mesmo acto a beleza das cores e dos cozinhados. A beleza da mesa posta e das cores da toalha e dos desenhos do guardanapo. Transformamos os actos básicos em palcos. Esta foi a nossa maturação desde os espécimes ancestrais humanos. O ódio, o amor, a guerra, as emoções, tudo isso se repete. A estética de nós mesmos, dos nossos, actos e de tudo o que nos rodeia. Essa tem sido a mutação, a procura e o aperfeiçoamento.
O ser humano é uma percepção estética do quotidiano. Ultrapassados os instintos básicos, nasceram os instintos abstractos.
A necessidade da beleza impregnou tudo o que já existia de nosso. Manchou os nossos hábitos sociais, alimentares, psicológicos, de higiene pessoal… E não intercalei estas facetas distintas sem intenção. Manchou-nos como uma obsessão arcaica que hoje é geneticamente transmitida.
Nem a ausência dos sentidos confere a perda da percepção e do desejo da beleza.
É provavelmente uma característica de sangue e alma. Por isto é mutável, mas impossível de destrinçar do ser humano.
Ei-la, na borda mármore de qualquer passeio, na orla branca e bela da tua pele que amo.



M.E