quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Teoria dos corações múltiplos

A mera visibilidade dos olhos revela-nos um coração. Único. Singular. Só.
Mas senão tivéssemos estes olhos, conseguiríamos ver que temos corações em cada unidade do nosso corpo. A arte de viver depende deste conhecimento, ainda que seja incognoscível.
O tempo, a vida e tudo o que a isto se anexa; entranham-se neste órgão múltiplo e entre si ligado numa rede electrificada.
E isto porque apenas um coração, levaria mais do que a própria vida a recuperar da mágoa inevitável à existência.
E isto porque apenas um coração, não teria espaço para o amor que compreende amar.
E isto porque há tragédias que destroem alguns dos corações.
E isto porque há felicidades cuja expressão depende de vários deles.
E isto porque a paixão é a activação de toda a corrente eléctrica dos corações.
E isto porque a separação é a perca de corações.
E isto porque a solidão mirra todos os corações, mas a pluralidade permite a sub-vida.
E isto porque a esperança é a união das forças de vários corações.
E isto porque o pensamento é múltiplo e precisa de ter um opositor do seu calibre.
Os corações são múltiplos, pois a vida é plural. Nada é fatídico para um só caminho, o caminho é um afluente de caminhos. Apenas isto.
Se no fim da vida tivermos intactos todos os corações, não terá existido vida.
Depois a morte revela-nos o único que permaneceu connosco até ao fim: o verdadeiro.
A esse, chamamos-lhe nosso. No instante seguinte,
(como é grande a dureza do seu segredo revelado)
deixa de bater.


M.E.

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